terça-feira, dezembro 28, 2004

Sobre o Natal e o ano Novo

As festividades do fim de ano, incluindo o Natal, representam um misto de alegria, reconforto e esperança. Mas, alegria por que? Quem nos reconforta? E o mais importante, o que nos dá esperança? Na verdade a alegria faz parte de um costume já sábido de que no Natal e no ano novo devemos estar alegres, esquecer as magoas, perdoar aqueles que passaram o ano nos ferindo, sorrir para as pessoas intragáveis e ainda sentir que todo esse sentimento é verdadeiro e permanente. Ora, esse é um comportamento elogiável e até digno, mas um tanto preocupante. Isso porque a falsidade é o verdadeiro sentimento assumido aqui. Quando passa as festividades toda a mascara caí e voltamos a ser os mesmos seres frios e calculistas que precisamos ser para sobreviver neste mundo. O reconforto de que falei faz parte também deste amontoado de sentimentos falsos, criados para nos persuadir na já difundida alegria do fim de ano. Aquele que nos reconforta é o mesmo que nos agride. Deve existir algo místico transformando as mentes das pessoas odiosas no fim de ano, fazendo delas seres até mesmo capazes de querer nosso bem. São essas pessoas a chegar por trás dando tapinhas e com um sorriso de lagarto nos comprimentando e dizendo o quanto foi bom ter passado o ano em nossa companhia. Balela! Passa o primeiro dia de janeiro e lá está ela reconfortando os ouvidos de outra pessoa com palavras maliciosas a nosso respeito. Resta a esperança. Essa nunca morre, não é?! Esperança de renovação, de melhora da saúde, de realização dos planos, um Brasil melhor e mais justos, saúde e educação gratuita e com boa qualidade para todos. São esperanças nobres entre as quais estãos as mais fúteis: perder peso até o carnaval, ganhar na loteria na páscoa, comer a vizinha no São João, ganhar um carro no dia dos pais, pegar todas no feriadão, passar no vestibular e chegar vivo ao próximo Natal. Esperança virou desejo. Na verdade tudo aquilo são desejos. O conceito e prática da esperança estão embuidos de toda uma arquitetura planejada. Não há como ter esperança sem planejar. Como esperar um mundo melhor no ano novo se não planejarmos ser pessoas melhores também. Não se pode ainda reprogramar a realidade ao modo de "The matrix". Como esperar comer aquela vizinha gostosa se nem ao menos sabemos o nome dela. Querer que ela adentre nosso quarto já pronta para o ato é uma fantasia que nem Lewis Carrol ousaria. Nas palavras de um amigo meu, o ilustre Gustavo Rogers Vaz, "faça". A epóca de tentar já passou, agora já não há mais tempo para isso, é a hora de fazer. Essas minhas palavras podem parecer um tanto asperas para o fim de ano. Só isso já prova o que disse. São asperas para o fim do ano, mas em qualquer outra epóca soaria normal. E afinal o que é normal no fim de ano? Não vá deixar de ser alegre, recusar um reconforto ou perder as esperanças pelo que foi dito. O que eu sinceramente gostaria é que pudessemos nos preocupar menos com o nosso comportamento (quase sempre forçado) entre o Natal e o ano novo e passassemos a nos preocupar em mudar nossas atitudes entre o ano novo e o Natal. São os meus votos para todos. E para fugir da tradição: Um Natal com saúde, paz e perto dos que te querem bem e um ano novo de realizações feitas a partir das suas atitudes.

Rodrigo Niskier