Conto do homem invisível.
Na rua atrás da casa onde moro, tem uma antiga construção, antiga mesmo! Trata-se de um velho depósito onde guardavam material de construção para casas. Hoje esse material está nas paredes e telhados de praticamente todas as casa da rua onde moro. Falar da minha rua, das pessoas, dos costumes, portanto, é falar sobre a história deste velho depósito. Desativado, já foi alvo de inúmeras ofertas. Seu valor, talvez superestimado, nunca iluminou os olhos de seu único dono. Tudo começou quando, por sorte talvez, um velho senhor sem posses andava por estas bandas. Isso foi há uns bons 20 anos. Em troca de abrigo, foi-lhe permitido trabalhar como empilhador no já mencionado depósito.
Todos os dias a carga com material chegava pontualmente às cinco e meia da manhã. O velho mendigo, acordado desde as três e meia, observava do seu canto, sem ser visto, o descarregamento do material e já esboçava em sua mente como iria organizar tudo para facilitar o trabalho dos mestres-de-obra quando viessem pegar o material. O resto da manhã se resumia em arrumar tudo e verificar a saída das coisas. Dormia cedo, não saía, nem se deleitava com mulheres, apenas dormia e trabalhava. Era organizado e limpo. Não era de conversa, mas atendia aos bons-dias que lhe eram ofertados anônima e despreocupadamente. Guardava tudo em sua mente, nunca desabafou ou comentou o que realmente sentia. Na sua vida pouco acontecia para ser mencionado. Os entregadores pouco sabiam sobre ele. Quem mais lhe conhecia era o dono do depósito, com o qual trocou meia dúzia de palavras no dia de sua chegada e nos dias de vistoria. Fora isso, não se dava muita importância ao velho descarregador do depósito.
Certo dia, como sempre, às cinco e meia da manhã, o caminhão com o material apontou na esquina, com um velho som de eixo mal encaixado. Ao chegar na frente do depósito os entregadores começaram a descarregar o material, como de costume. Deixaram lá e foram embora. O material foi verificado, separado, qualificado e devidamente arrumado no lugar de acesso para ser pego mais tarde. E assim foi feito. No fim daquele dia, o depósito foi limpo e trancado, muito bem trancado. O que torna minhas últimas palavras e este dia tão parecidos?! A ausência do velho!
A mesma rotina se repetiu por três dias. Tudo acontecia como sempre, mas a ausência do velho no dia da vistoria preocupou o dono do depósito. Ao questionar os entregadores nenhum deles afirmou ter visto o velho naqueles dias, ou qualquer dia. Os que por ali passavam nunca haviam prestado atenção suficiente para perceber sua ausência. Mas agora era diferente. Antes uma pessoa dispensável, desapareceu! O intrigante era saber quem havia feito o serviço naqueles dias. O dono do depósito alertou os entregadores para esperarem pela figura misteriosa a ocupar o lugar do velho. Assim foi feito. Mas ninguém apareceu. Cansados e sem expectativas, os entregadores foram embora quando o relógio anunciou oito horas. Por desencarno de consciência, um deles voltou de meio dia para conferir. Sua surpresa foi ver, não apenas tudo arrumado, mas um punhado de roupas lavadas, secando num varal ausente naquela manhã. Boatos começaram a circular entre os entregadores e os mestres-de-obra. Falava-se em fantasmas e coisas assim. O certo é que se deixava o material e tudo ocorria como se o velho estivesse lá. Não estava?!
Um ano se passou e o mistério continuava. Ninguém via o velho, mas o trabalho era feito. Já cansado desta história toda, o dono do depósito resolveu dormir uma noite lá para poder encontrar o misterioso operário e perguntar-lhe pelo velho. Escondeu-se. Estava escuro. Seu coração estava muito acelerado e seus olhos mal conseguiam ver as paredes na sua frente. Encolheu-se e observou.
Quando cochilava, por volta das três e meia, um barulho na porta dos fundos foi ouvido. Era discreto. Seu nervosismo voltara. Ficou esperando. De repente, um vulto passa por trás. Sua espinha gela e sua mão começa a suar. Mas a duvida lhe toma a mente e seu corpo, num impulso, levanta e agarra o objeto vultuoso. Ambos rolam e gritam espantados. O dono do depósito consegue arremessá-lo um pouco longe para poder ligar as luzes. Um jovem e amedrontado rosto se revela.
A única maneira de ser notado na vida miserável que levava era através do trabalho sempre feito. Por isso, o velho, em seu leito de morte, pediu a um jovem amigo para não deixar ser esquecido. Em troca poderia morar no depósito e comer a refeição diária que lhe era deixada na porta pelos mestres-de-obra. Deveria apenas fazer o serviço de modo não ser notado para pensarem ser o velho a fazê-lo. Assim, todos pensariam que ele estava lá, na mesma discrição, insignificância e descaso que o mundo lhe ofertou ao nascer. Tornou-se imortal. Nunca foi visto, mas sempre será lembrado.
Comentário: As pessoas passam por nossas vidas. Um bom dia, boa tarde ou boa noite podem parecer atividades mecânicas. Muitas vezes olhamos para as pessoas e mesmo sem saber quem são as desprezamos. Cada par de olhos tem uma história para contar. Cada par de pernas já visitou milhares de cantos os quais talvez nunca cheguemos a ir. Só vamos perceber a presença dessas pessoas quando elas se forem. Notar a ausência de alguém não a torna conhecida, nem mesmo lembrada. Isso apenas mostra o pouco valor dado à história pessoal de cada um. Este um com o um da minha rua, com o um da sua rua são os escritores da história. Uma história que você não conhece porque só vai se preocupar em perguntar quando este um não estiver lá.
Todos os dias a carga com material chegava pontualmente às cinco e meia da manhã. O velho mendigo, acordado desde as três e meia, observava do seu canto, sem ser visto, o descarregamento do material e já esboçava em sua mente como iria organizar tudo para facilitar o trabalho dos mestres-de-obra quando viessem pegar o material. O resto da manhã se resumia em arrumar tudo e verificar a saída das coisas. Dormia cedo, não saía, nem se deleitava com mulheres, apenas dormia e trabalhava. Era organizado e limpo. Não era de conversa, mas atendia aos bons-dias que lhe eram ofertados anônima e despreocupadamente. Guardava tudo em sua mente, nunca desabafou ou comentou o que realmente sentia. Na sua vida pouco acontecia para ser mencionado. Os entregadores pouco sabiam sobre ele. Quem mais lhe conhecia era o dono do depósito, com o qual trocou meia dúzia de palavras no dia de sua chegada e nos dias de vistoria. Fora isso, não se dava muita importância ao velho descarregador do depósito.
Certo dia, como sempre, às cinco e meia da manhã, o caminhão com o material apontou na esquina, com um velho som de eixo mal encaixado. Ao chegar na frente do depósito os entregadores começaram a descarregar o material, como de costume. Deixaram lá e foram embora. O material foi verificado, separado, qualificado e devidamente arrumado no lugar de acesso para ser pego mais tarde. E assim foi feito. No fim daquele dia, o depósito foi limpo e trancado, muito bem trancado. O que torna minhas últimas palavras e este dia tão parecidos?! A ausência do velho!
A mesma rotina se repetiu por três dias. Tudo acontecia como sempre, mas a ausência do velho no dia da vistoria preocupou o dono do depósito. Ao questionar os entregadores nenhum deles afirmou ter visto o velho naqueles dias, ou qualquer dia. Os que por ali passavam nunca haviam prestado atenção suficiente para perceber sua ausência. Mas agora era diferente. Antes uma pessoa dispensável, desapareceu! O intrigante era saber quem havia feito o serviço naqueles dias. O dono do depósito alertou os entregadores para esperarem pela figura misteriosa a ocupar o lugar do velho. Assim foi feito. Mas ninguém apareceu. Cansados e sem expectativas, os entregadores foram embora quando o relógio anunciou oito horas. Por desencarno de consciência, um deles voltou de meio dia para conferir. Sua surpresa foi ver, não apenas tudo arrumado, mas um punhado de roupas lavadas, secando num varal ausente naquela manhã. Boatos começaram a circular entre os entregadores e os mestres-de-obra. Falava-se em fantasmas e coisas assim. O certo é que se deixava o material e tudo ocorria como se o velho estivesse lá. Não estava?!
Um ano se passou e o mistério continuava. Ninguém via o velho, mas o trabalho era feito. Já cansado desta história toda, o dono do depósito resolveu dormir uma noite lá para poder encontrar o misterioso operário e perguntar-lhe pelo velho. Escondeu-se. Estava escuro. Seu coração estava muito acelerado e seus olhos mal conseguiam ver as paredes na sua frente. Encolheu-se e observou.
Quando cochilava, por volta das três e meia, um barulho na porta dos fundos foi ouvido. Era discreto. Seu nervosismo voltara. Ficou esperando. De repente, um vulto passa por trás. Sua espinha gela e sua mão começa a suar. Mas a duvida lhe toma a mente e seu corpo, num impulso, levanta e agarra o objeto vultuoso. Ambos rolam e gritam espantados. O dono do depósito consegue arremessá-lo um pouco longe para poder ligar as luzes. Um jovem e amedrontado rosto se revela.
A única maneira de ser notado na vida miserável que levava era através do trabalho sempre feito. Por isso, o velho, em seu leito de morte, pediu a um jovem amigo para não deixar ser esquecido. Em troca poderia morar no depósito e comer a refeição diária que lhe era deixada na porta pelos mestres-de-obra. Deveria apenas fazer o serviço de modo não ser notado para pensarem ser o velho a fazê-lo. Assim, todos pensariam que ele estava lá, na mesma discrição, insignificância e descaso que o mundo lhe ofertou ao nascer. Tornou-se imortal. Nunca foi visto, mas sempre será lembrado.
Comentário: As pessoas passam por nossas vidas. Um bom dia, boa tarde ou boa noite podem parecer atividades mecânicas. Muitas vezes olhamos para as pessoas e mesmo sem saber quem são as desprezamos. Cada par de olhos tem uma história para contar. Cada par de pernas já visitou milhares de cantos os quais talvez nunca cheguemos a ir. Só vamos perceber a presença dessas pessoas quando elas se forem. Notar a ausência de alguém não a torna conhecida, nem mesmo lembrada. Isso apenas mostra o pouco valor dado à história pessoal de cada um. Este um com o um da minha rua, com o um da sua rua são os escritores da história. Uma história que você não conhece porque só vai se preocupar em perguntar quando este um não estiver lá.
Rodrigo Niskier


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