Até que a morte os separou
Estava conversando com uma amiga (a qual darei crédito caso ela não se importe com as idéias aqui) sobre casamento. Não me refiro ao processo do casamento, à cerimônia. Estou falando de unir-se, da necessidade de estar junto com outra pessoa. Se você investigar em várias culturas, em várias épocas, você vai poder desenvolver uma escala de evolução do casamento. Vai perceber que em tempos ele foi valorizado e em outros nem tanto. A questão é que a escala vai ser baseada nos registros e a questão de registrar é bem típica das percepções. Eu sou geneticista e penso em termos evolutivos sobre as coisas, por isso raciocino epistemologicamente.
Não tenho evidências tangíveis para afirmar que as uniões humanas se deram para permitir a sobrevivência da progênie, mas me parece bem possível. Imagino um cenário onde um macho humano se relaciona com uma fêmea de sua espécie e a abandona prenha. Coloque agora um contexto de fome, carência nutricional, ataque eminente de um predador, doenças infecciosas sem tratamento ou cura e ainda mais uma gestação para dar conta. Uma figura protetora se faz necessária. Alguém que traga o alimento, que proteja, que cuide, em detrimento da vida do herdeiro. Uma união parece apropriada nesse momento. É justo pensar que a convivência teria que ser tolerável. Instintivamente cuidar dela deveria ter como objetivo garantir que o herdeiro iria sobreviver e, um dia, transmitir essa herança.
Fico pensando que quem cunhou o casamento foi um rebelde de alguma tribo ou grupo que quis provar que poderia gerir sua própria tribo e para isso teve que levar consigo aquela que carregava em si o futuro do seu projeto. Isso porque acredito que a sobrevivência humana se deu e se dá, em grupo. Somos seres egoístas o suficiente e nos integramos à vida de outros só para garantir a própria existência. Mas, e por que depois que o filho nasce à união não acaba? Ora, imagine o mesmo contexto de fome, doença e tal para uma mãe e uma criança. É claro que o jovem rebelde teria que ficar por ali cuidando para que tudo desse certo. Agora lembre, nesse período não se vivia muito. Viver 30 anos era raro. Não preciso mencionar o contexto novamente para você compreender as possibilidades de morte antes dos 30. Estamos falando de 10 mil anos atrás (Raul, ajuda). Então imagine, um jovem de 17 anos, na sua explosão hormonal, engravida uma jovem que acabou de menstruar (16 ou 17 anos naquela época). Eles vão ficando pra trás da tribo migrante e ele vai cuidando para garantir a segurança dela e do bebê. Nove meses de união. Depois você adiciona mais uns 12 ou 13 anos de cuidados e orientação para o herdeiro. Isso demanda energia e tempo desse macho. Ele cobra isso em forma de fidelidade, o que o faz estar sempre por perto e, por fim, isso faz com que a cobrança seja recíproca. Nisso o pai já está com 28 ou 29 anos, o filho está “pronto” para sobreviver e o contexto ambiental acaba por consumir o pai. A união deveria persistir até que o herdeiro pudesse sobreviver por si. Não foi “criada” para durar “para sempre”. Sem perceber eles viveram juntos até que a morte os separou. As conveniências sociais, interesses financeiros e até políticos se responsabilizaram por criar uma moldura para essa necessidade primária de sobrevivência.
É curioso perceber que em muitos grupos os homens reclamam de “ter que se casar”, que isso representa o fim da “liberdade” e até já ouvi que o casamento é a forma mais cara de se obter sexo de graça, sendo que me parece ter sido o próprio homem quem de fato percebeu a necessidade de estar ao lado da mulher para garantir a sobrevivência de seu herdeiro. Tudo o mais se foi criando ao redor disso. Deixo as demais considerações e conclusões para vossas indagações. A história é longa.


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