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Quando eu era adolescente tudo que eu queria era ser livre.
Eu morava com meus pais e um irmão mais novo pentelho. Desde a época de colégio
sempre fui muito limitado em saídas, festas, convivência com outras pessoas e
até mesmo com a família. Tive várias fases tentando me descobrir, procurando o
meu papel na sociedade e na minha família. Dei muito trabalho. Mas eu lembro muito bem que na minha
juventude eu sempre olhava os classificados no Domingo. Eu esperava encontrar
algum emprego para alunos do ensino médio. Eu queria ganhar dinheiro. Pensava
em ajudar minha mãe, mas queria um emprego principalmente para ser livre. Meus
pais não me negavam recursos para saúde, alimentação, estudos e um pouco de
lazer, mas eu queria poder comprar algo sem ter que pedir dinheiro a minha mãe.
Além
dos empregos eu olhava também anúncios de carros, casas e outros bens. Ficava
associando uma oportunidade de emprego com a compra daqueles bens. Era o que eu sonhava e planejava naqueles
dias. Veio a faculdade. Muitas coisas mudaram. Minha relação com as pessoas,
minha independência par ir onde bem queria, meus compromissos, mas eu ainda
procurava emprego para universitários no jornal de Domingo e olhava o preço das
coisas que eu queria, principalmente um carro. Aventurei-me em algumas ciladas,
vendendo plano de saúde e até antena por assinatura. Não ganhei um centavo
nessas tentativas. Foi aí que percebi que poderia dar aula particular. Foi onde
tudo começou a mudar.
Eu percebi que era até bom nisso e que poderia ganhar mais
dando aula para vários alunos ao mesmo tempo. Comecei a ensinar reforço escolar
para alunos do ensino médio. Tornei-me monitor na faculdade e comecei a dar
aulas particulares na faculdade também. Não demorou e eu já estava organizando
um curso de grandes proporções.
Conto isso para que percebam que nesse exato momento eu
começo a deliciar a liberdade de ter dinheiro para fazer o que eu quiser.
Viagens, festas, presentes, coisas pessoais e até ajudei no orçamento da casa.
Comecei a enxergar-me como profissional. Mas faltava alguma coisa.
Quando terminei a faculdade eu ainda passei um ano fazendo
pós-graduação e tentando trabalhar com organização de cursos e eventos. Deu
certo por um tempo, mas eu vi que precisava me habilitar melhor na minha profissão
de ensinar. Resolvi fazer mestrado e abandonar um pouco essa fase de empresário
da educação. Detalhe, o mestrado era em outro estado, quase 300km distante dos
meus pais. Era o que estava faltando e que eu tanto queria, morar só.
Lembro do dia em que minha mãe deixou minhas coisas no
apartamento que iria dividir com mais três colegas. Aquele instante foi o
momento em que senti a liberdade que eu tanto queria anos atrás. Estava só,
numa cidade longe recebendo uma bolsa de estudos para fazer o mestrado e
organizando pequenos cursos para gerar uma renda extra.
Bem, daí pra frente eu vi que a liberdade que havia
conquistado era uma mera ilusão. Assumi uma postura de não voltar para casa dos
meus pais. Batalhei depois do mestrado para poder sustentar todas as minhas
modestas cobiças. Meus passeios, viagens, presentes, enfim, tudo que queria
comprar seria com meu dinheiro dali pra frente. Ir morar sozinho e longe foi um
marco para mim.
A liberdade que eu tanto busquei, tanto sonhei, planejei,
lutei e conquistei trouxe, na verdade, uma série de prisões. Estou preso ao meu
trabalho, apesar de fazer o que gosto e amo, mas eu estou preso a ele. Não
posso simplesmente deixar de ir um belo dia. Outros dependem da minha presença.
Minha ausência seria penalizada. Morar só me prende a necessidade de organizar
e manter a casa, pagar as contas e seguir as regras do condomínio. Em breve
estarei casado, preso ao compromisso de fazer outra pessoa feliz. Contas,
emprego, família, tudo que eu queria e até planeja como recursos para minha
liberdade juvenil agora revelam-se prisões.
Não entendam mal, essas são as prisões que escolhi ter. Em
parte me deixam triste, porque no fundo quero me libertar de tudo e realmente
fazer o que eu quiser, quando e onde eu quiser. Por outro lado, sinto-me
realizado, orgulhoso de mim mesmo. Vejo até onde já cheguei e vislumbro onde
quero chegar. Nesse momento as prisões ficam mais tênues e eu me sinto bem por
tudo que aconteceu.
Existem, portanto, certas (pseudo) liberdades que nos
empurram para prisões terríveis, que nos tiram o sono e a saúde. Existem também
prisões que nos maravilham com a realização dos nosso planos e sonhos. É o
ciclo de desmame. As regras de sobrevivência são-nos ensinadas, às vezes meio a
contragosto, depois nos tornamos responsáveis para colocar em prática o que
aprendemos, sob pena do nosso próprio insucesso. Estamos presos a nós mesmos e,
nesses termos, nunca seremos livres.
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