Engraçado. À medida que envelhecemos vamos esquecendo muitas coisas. As mais importantes permanecem em nossa memória por algum tempo, talvez uns dez, vinte anos. Algumas nunca esquecemos. Outras sempre tentamos esquecer, mas nunca conseguimos. Às vezes procuramos lembrar, mas é em vão. A questão é do que lembrar. Hoje tenho vinte e quatro anos. Lembro ainda de algumas coisas de muitos anos atrás. Claro, olho minhas fotos e de repente passa um filme na minha cabeça. Em alguns deles quase posso sentir o cheiro, ver as cores e ouvir as vozes. Lembro que sempre tive muitos pensamentos na minha cabeça. Sempre me perguntava sobre tudo. Lembro da minha primeira casa que ficava no andar em cima do trabalho do meu pai. Não lembro de nenhuma refeição que fiz nessa casa, exceto uma em que alguém chega para dar alguma noticia. Não sei quem era nem qual era a noticia. Lembro de uma noite no meu aniversário. Eu estava dormindo. Meu pijama era roxo com bolinhas brancas. Meu cabelo era ligeiramente grande. Meu pai chegou e me acordou com um presente. Era um canhão do Rambo que soltava mísseis. Adorei aquele brinquedo. Não lembro de muita coisa. Talvez, na verdade, eu lembre só da foto que tenho deste evento. Talvez minhas lembranças sejam das fotos e não das coisas e pessoas. Acho que só posso dizer que lembro de alguém se conseguir saber como era sua voz, seu cheiro, seu jeito. Lembro pouco do meu primeiro colégio, da minha primeira professora, dos meus primeiros colegas. Lembro, e isso muito bem, afinal não tenho foto disso, de um dia em que fui com minha mãe comprar carne. Ela entrou no frigorífico e eu fiquei do lado de fora, na ponta da calçada balançando a perna para rua. Lembro que um carro bateu na minha perna e que meu chinelo foi parar longe. Não lembro de mais nada desse dia. Lembro do dia em que soltei a marcha do carro do meu pai, um fusca prateado. Ele bateu na parede do quintal da casa de alguém onde estávamos. Lembro do dia em que meu irmão quebrou o limpador de vidro deste carro. Este dia eu queria esquecer. E como. Acho que ainda sou relativamente jovem. Ainda lembro de muita coisa. Talvez um dia eu esqueça isso tudo. Talvez algumas coisas eu lembre para sempre. Muitas coisas que lembro foram o que me fizeram ser o que sou hoje. Lembro que eu era muito feliz. Penso que poderia ter sido mais. Infelizmente, muito infelizmente mesmo, nunca vou descobrir. Ah! Como era bom ser criança. Como aquela época era boa. Talvez, daqui a uns bons vinte anos eu venha pensar do mesmo jeito sobre minha atual idade. Acho que isso acontece com todos. Talvez porque nem sempre conseguimos ser aquilo que queremos. Nem sempre conseguimos ter o que amamos. Então lembramos de uma época em que ainda não queríamos tais coisas ou, era uma época em que ainda podíamos fazer planos ou sonhar com essas coisas. Hoje, muitos sonhos e planos se tornaram desilusões e lamentos. Pó e cinzas. Não lembro exatamente o que pretendia ser quando crescer. Acho que queria ser super-herói. Talvez eu só quisesse crescer. Mas pra quê?! Hoje estou querendo ser criança de novo. Imaturidade? Desilusão? Frustração? Pode ser. Mas com certeza saudade! Saudade de um tempo em que viver era mais fácil. Em que minhas preocupações duravam pouco tempo. Os planos eram muito simples e quase todos envolviam brincar, comer e me divertir. Como era bom! Lembro de uma boa conversa com os colegas de escola. Bruno, Wilson, Fernando Varejão, Sandra(!), Melissa, Karina (everest)...onde estão estas pessoas? Tudo ao seu tempo, disseram-me uma vez. Mas por que de repente não podemos fazer o que queremos. Em que exato ponto deixamos de querer ser super-heróis para ter que ser alguma coisa que seremos por um bom tempo em nossa vida. Vamos fazer isso por muito tempo. Vamos tentar até ser bons nisso. Mas muitas vezes vamos chegar em casa um dia, sentar na cama, olhar paras paredes do quarto e lembrar do tempo em que só queríamos brincar, só queríamos comer e nos divertir. Vamos lembrar de um tempo em que nossos pais cuidavam de nós e agora nós cuidamos deles e de nossos filhos. Vamos lembrar de um tempo mágico. Vamos lembrar que a vida era boa, mas o tempo foi mal. E então vamos parar de pensar nisso porque temos contas para pagar, coisas para fazer, decisões para tomar, muitas decisões. Vai chegar um dia em que vamos crescer. Vamos passar dessa fase para outra e outra e outras. Não sei quando chega esse dia em cada fase. Mas, quando chegar espero poder olhar para época de hoje e lembrar que foram dias incrivelmente bons.
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