domingo, dezembro 15, 2013

Somos escravos

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Estive pensando sobre nossa condição de liberdade democrática. Acordamos, trabalhamos, estudamos, nos divertimos e dormimos. No meio disso tudo existe uma grande diversidade de detalhes que escapam a nossa compreensão. Detalhes pensados e colocados em ação pelos nossos governantes, eleitos democraticamente pelo povo. Democraticamente? Escolhemos mesmo os nossos governantes? As opções dadas para nossa escolha são autênticas ou manipuladas? 

Escolher entre opções limitadas não é escolher de verdade. Uma vez escolhidos, nossos representantes governamentais cuidam dos nossos interesses, muitas vezes decidindo que os nossos interesses serão melhor cuidados por outros; muitas vezes estes outros são desconhecedores das nossas necessidades, das nossas peculiaridades e dos nossos desejos. 

Educação privada, segurança privada, saúde privada, transporte privado, alimentação privada, moradia privada. Todos somos livres, todos temos direitos constitucionais e todos somos subjugados.  Logo cedo somos registrados, nomeados, identificados através de um registro geral, de um código de pessoa física ou jurídica. Temos nome, mas nos enxergam como números. Ainda cedo também somos ensinados sobre o funcionamento da sociedade, aprendemos na prática a teoria econômica vigente. Temos que trabalhar. Temos que ganhar dinheiro. Temos que ter bens. Precisamos pagar por serviços básicos, garantidos pela constituição. 

E como é bela a nossa democracia. Cada um contribui para garantir os direitos básicos da nossa lei magna. Quem trabalha mais, ganha mais, contribui mais. Justo(?!). E, nas mãos dos nossos governantes, o poder para deliberar a distribuição desse imposto (derivado do verbo impor? Obrigar?). Saúde, educação, segurança, transporte, alimentação, moradia, tudo isso é nosso (?!). 

A forma como esses direitos são negados na sua forma eficiente, plena e decente é clara nos olhos da mãe que chora com o filho doente na fila de um hospital precário; nas mãos calejadas, doloridas e mal remuneradas de um trabalhador; nos ônibus abarrotados, atrasados e quebrados; nos milhões de moradores nas ruas, pedintes, que roubam e matam; e em tantos outros exemplos da nossa rotina apressada e displicente. 

Mas todos esses direitos não são frivolidades, são básicos, necessários para uma vida digna, plena e feliz. O mínimo para sustentar a efemeridade da nossa existência humana. Então, precisamos de saúde, de educação, de segurança, de transporte e de moradia, todos com qualidade suficiente, condizente com o imposto pago mensalmente. Mas não são. 

Veja como as coisas são: aprendemos cedo que precisamos trabalhar para pagar impostos ao estado, este garante a concessão do nosso direito maior. Diante da insuficiência desse cumprimento, precisamos pagar mais por serviços privados que nos alimente, abrigue, proteja, transporte, eduque e nos torne saudáveis apenas para podermos trabalhar mais. Tudo isso porque precisamos cumprir nosso dever social de pagar impostos e contribuir para manutenção da nossa grandiosa democracia onde, o auge da nossa liberdade é o voto livre em candidatos manipulados e em opções limitadas. 

Extrapolando isso para o significado dos nossos dias de trabalho, entendo ser a nossa liberdade apenas uma reles maquiagem sobre as opções que nos são dadas pelos governantes que escolhemos. Quando eu voto estou escolhendo o candidato que vai me dar certas opções para minha vida. Mas não quero que me deem as opções. Quero eu mesmo definir as opções e escolher o melhor para mim. 

Novamente, liberdade de escolha entre opções pré-definidas não é democrático e nem libertador. É uma prisão disfarçada. É uma escravidão. A verdadeira liberdade é um sonho que temos todos os dias quando nos deitamos e pensamos como a vida seria melhor. Esse sonho é a base que nos mantêm vivos, fortes e perseverantes. Por ser tão importante esse sonho é alimentado até por quem nos mantêm escravos. 

Se não fosse por isso, se não fosse possível sonhar, não trabalharíamos tanto para manter nossa escravidão disfarçada. É melhor dar opções pré-definidas ao invés de chicotear e aprisionar. Estes são os nossos novos grilhões. Não aceitaríamos ser chicoteados para manter a riqueza, opulência e ostentação dos nossos governantes, mas aceitamos bem a nossa condição obrigatória de eleitor.